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História
por Jakson Goulart

À sombra das cachoeiras

Tropeiros e boteiros deram impulso ao desenvolvimento de Santana do Paraíso De região inóspita a um município industrializado, Santana do Paraíso é considerado o "caçula" da Região Metropolitana do Vale do Aço. Embora com apenas 18 anos de emancipação, comemorados no dia 28 de abril de 2010, a cidade guarda muitas histórias e é um exemplo da luta dos desbravadores que chegaram à região alguns séculos atrás.
No reinado de Dom João VI, a atual Santana do Paraíso era uma região inóspita, que foi entregue às autoridades portuguesas no projeto de "civilização" dos nativos Nack-ne-nuck, índios bravios descendentes dos Aimorés, do grupo Tapuia e do tronco linguístico Macro-Jê. Em 1809, Dom João VI determinou a ocupação dessa região por tropas nacionais e, na divisão, as terras do município passou a pertencer à 1ª Divisão Militar do Rio Doce.
Essa Região Militar foi entregue a Antônio Rodrigues Taborda, que comandava ações de ocupação de terra e combatia a resistência dos índios, apelidados de botocudos devido aos ornamentos que utilizavam, principalmente nos lábios. A administração das Regiões Militares, porém, revelou-se um grande fracasso. Conforme o historiador Osvaldo Aredes Louzada Filho, a maior dificuldade na época era encontrar homens para adentrar a densa mata, enfrentar os índios e a febre, o que fez com que o rei de Portugal reestruturasse as Divisões Militares, nomeando o francês Guido Marliére como administrador geral do Rio Doce, a partir de 1819.

Tropeiros
Osvaldo Aredes sustenta que o processo de ocupação de Santana do Paraíso é mais antigo que os demais municípios do Vale do Aço. O território da margem esquerda do rio Doce (a oeste do rio) esteve ligado diretamente à fase áurea da mineração em Minas Gerais, e tinha no município de Ferros – ao qual o então distrito pertencia, entre 1892 e 1923 – uma referência para os moradores da região. No final do século XIX, o local onde se construiu a cidade era um ponto de tropeiros que faziam a rota ligando a região do Calado, atual Coronel Fabriciano, ao município de Ferros. As tropas, vindas geralmente de Antônio Dias, passavam pelo Calado e por Barra Alegre (atual distrito de Ipatinga) e, para seguir até o Achado, tinham que passar pelo então povoado de Taquaraçu, subindo a Serra do Chico Lucas e seguindo viagem em direção a Ferros. A Cachoeira do Engelho Velho, ou Taquaraçu, no centro da cidade, próximo ao local onde hoje se situa o prédio da Prefeitura Municipal, era a preferida pelos tropeiros para o seu descanso. Ao longo dos anos as tropas foram aumentando e a margem da cachoeira acabou se transformando num importante centro comercial.

Ciclo Econômico
De acordo com o historiador Osvaldo Aredes, os tropeiros foram responsáveis pelo ciclo econômico da cidade, que atualmente possui várias indústrias e o único aeroporto do Vale do Aço. As cachoeiras de Santana do Paraíso eram o ponto de referencia mais significativo da região, "comprovando, assim, o privilégio do município de possuir recursos naturais mais significativos que os municípios vizinhos".
A "Fazenda da Cachoeira do Engenho" foi o primeiro centro comercial da região, com moinho e máquinas de limpar café e arroz. Logo surgiram outros armazéns de cereais e novos moradores começavam a chegar, motivados principalmente pela beleza do lugar e pela farta caça e pesca.
O primeiro nome da cidade, Taquaraçu, homenageava um tipo de vegetação muito comum na área e significa "grande bambu". O território do atual município pertenceu à Itabira do Mato Dentro e foi elevado a distrito em 1892.

Boteiros
No início do Século XX, com a chegada da Estrada de Ferro Vitória Minas, a região passou a experimentar um grande crescimento demográfico, com o aumento considerável de fazendeiros e produtores rurais que sonhavam escoar a produção agrícola pelo caminho de ferro em direção a Itabira e a Figueira do Rio Doce (atual Governador Valadares).
A linha férrea passava pelo "Porto do Sal", atual bairro de Ipaba do Paraíso, que se transformou num grande entreposto comercial no final do século XIX. Nessa época, em vez dos tropeiros, destacavam-se os boteiros, responsáveis pelo transporte de mercadorias que atendiam, ainda, todo o extenso município de Caratinga.
Depois de construída a ferrovia, o atual bairro conhecido como Ipabinha ganhou mais importância comercial. Foi dali que partiram os homens que construiriam a Estação de Pedra Mole, que daria origem ao município de Ipatinga.

Siderurgia
Em 1923, Minas Gerais sofreu uma nova subdivisão territorial, e o então distrito de Conceição de Mato Dentro foi anexado ao município de Mesquita. Nesse período, o local viveu uma fase de estagnação, até a chegada da siderurgia à região, primeiro com a construção da Acesita, em meados dos anos 40, e depois da Usiminas, no final dos anos 50. No território de Santana do Paraíso foi construído o aeroporto da Usiminas, juntamente com o Distrito Industrial, que hoje abriga um grande número de empresas às margens da BR-381.
A partir da sua emancipação, no dia 28 de abril de 1992, a cidade começou a viver mais um ciclo econômico, com aumento do número de indústrias e um grande crescimento da sua área urbana, através da formação de novos bairros e loteamentos feitos por empresas do setor imobiliário.

Entre pioneiros, uma ex-escrava
Apesar de sua longa história, Santana do Paraíso guarda poucas recordações do início de sua ocupação. Moradores mais antigos cuidam da memória da cidade, preservada por meio da oralidade, enquanto o poder público tenta recuperar o tempo perdido com a reativação do seu Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural.
Dos personagens históricos da cidade, certamente o mais conhecido é Maria Isabel Rainha do Porto, a "Cecília Preta", como era mais conhecida. Dizem os mais antigos que ela era escrava, libertada pela Lei Áurea, e era muito respeitada pelos moradores, aos quais gostava de contar histórias de seu tempo.

Pioneiros
Outro nome mais conhecido da população é o de Manoel Carlos, dono da primeira loja da cidade, que abastecia com tecidos, calçados e outras mercadorias que, até então, eram buscadas, em lombos de mulas, em algumas cidades da região. Também dessa época eram Amâncio Daniel de Oliveira, José Soares (Juca Soares), Francisco Máximo, Manuel Messias, Virgínia Messias, Joaquim Jerônimo e Neftaly Caetano Assunção.
A história de Santana do Paraíso registra ainda como pioneiros Salvelino Fernandes Madeira, um dos primeiros habitantes do Córrego Soveno, hoje bairro São Francisco; Elias Matias de Oliveira, comerciante e fazendeiro; João Moço, um do primeiros donos da Cachoeira do Engenho; Joaquim Gonçalves, um dos primeiros habitantes do Achado; Pedro Soares de Oliveira, um dos grandes incentivadores dos esportes; Antônio Félix Damasceno (Tilim), primeiro Presidente da Conferência de São Vicente de Paula; e Teresa Serápia Almeida, primeira agente dos Correios.

Congado mantém a tradição
Outras manifestações de religiosidade em Santana do Paraíso antecedem a construção da Igreja Matriz de Santana, localizada na praça central. Uma delas é o congado, que, segundo relatos históricos, teve em Albertino Daniel o seu pioneiro, líder de um grupo formado por agricultores das diversas partes da cidade que há mais de cinco décadas participa das grandes concentrações regionais, principalmente da Festa de Santana.
Com a morte dos antigos "marujos", o Congado de Nossa Senhora do Rosário teve dificuldades para renovar seu quadro dançante e manter viva a tradição. Ainda assim, o grupo se mantém vivo, com aproximadamente 20 integrantes, e sempre participa das festas religiosas de Santana do Paraíso e de outras cidades da região, apresentando suas animadas e coloridas evoluções, com destaque para a "Dança da Fitas".

Festa do Divino
A Festa do Divino, realizada nos mês de janeiro, é a principal manifestação cultural, quando são escolhidos o "rei" e a "rainha" do Congado.
Tradicionalmente, os reis coroados patrocinam um farto almoço para todos os membros do congado e da Bandeira do Divino. A festa chegou a cair no esquecimento, mas, com apoio da Prefeitura, seus integrantes iniciaram um processo de legalização e de retomada das atividades.

Boi Balaio
Outra festa que marcou época em Santana do Paraiso, nos anos 80, é a do Boi Balaio. Como manifestação de caráter popular, o Boi Balaio se apresentava sempre no sábado de Aleluia, acompanhado por instrumentistas, que faziam evoluções e cantavam um repertório de músicas tipicamente rurais.

Patrimônio preservado
Apesar de ser considerado o mais antigo núcleo habitacional do Vale do Aço, somente nos últimos cinco anos é que Santana do Paraíso começou a se preocupar com a preservação de sua história e suas tradições. Foi nesse ano que a Prefeitura iniciou um levantamento detalhado do patrimônio histórico e cultural do município, que, entre outros objetivos, busca definir uma política que ajude a resgatar a riqueza da história da "caçula" da Região Metropolitana do Vale do Aço.
A primeira providência foi reativar o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural de Santana do Paraíso, que foi organizado em 1999, mas só passou a atuar efetivamente a partir de 2005. Além de representantes do poder público, o órgão conta agora com a participação de moradores e entidades comunitárias. O segundo passo foi atualizar o Plano de Inventário, que tem, até agora, três bens "tombados" pelo Patrimônio Cultural, o que significa que estão protegidos: a Igreja Matriz de Santana, o antigo casarão da Belgo, em Ipaba, e a frondosa gameleira localizada na entrada da cidade. Paralelamente, estão sendo feitos estudos para "tombamentos" de outros bens do patrimônio de Santana do Paraíso, como suas cachoeiras, o congado e a Festa de Santana, estas duas últimas consideradas "bens imateriais".

Patrimônio
Dos três bens tombados pelo Patrimônio Cultural de Santana do Paraíso no dia 20 de abril de 1999, o que está em melhor situação é a Igreja Matriz de Santana, no centro da cidade. O imóvel é mantido com muito zelo pela Paróquia de Santana, responsável por reparos e pela manutenção de suas características originais. Símbolo da religiosidade local, a Igreja da Matriz ocupa lugar de destaque na paisagem urbana do município, por estar localizada na Praça da Matriz, no Centro, que neste ano foi revitalizada e ganhou novo visual.
O mesmo não acontece em relação ao casarão de Ipaba, que está sendo recuperado para se transformar num espaço cultural para a comunidade. Localizado na rua Jair Mafra, anexo à Escola Municipal Maria Ivone Damasceno e à Escola Estadual José Rosa Damasceno, o casarão de Ipaba ocupa uma posição privilegiada, por estar localizado em um platô de onde se avista o rio Doce e a cidade, do outro lado da ferrovia e do rio.
O chamado "Casarão de Ipaba" demarca o importante ciclo da ferrovia no município e sempre foi uma referência para os moradores – antigos e atuais. O local já foi pousada de ferroviários, escola e posto de saúde, e atualmente está anexado à Escola José Rosa Damasceno. O casarão é a principal referência ao início do povoamento do município, que, com a privatização da antiga Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), teve demolidas as ruínas de sua antiga estação e de algumas casas à margem da ferrovia.
Embora preservada, a árvore gameleira da avenida Minas Gerais, também elevada à condição de bem do patrimônio histórico de Santana do Paraíso, se destaca na paisagem urbana da cidade, principalmente para quem chega pela MG-232. Entre casas e prédios de até três pavimentos, a árvore, imponente, é o símbolo de uma época em que o verde tomava conta da cidade.

Marlière, o 'pacificador'
A história de Santana do Paraíso – como de outros municípios do Vale do Aço – está diretamente ligada a um certo capitão francês, que ajudou a desbravar áreas inóspitas e a "pacificar" os índios que ocupavam a região e que, por sua importância histórica, acabou inspirando nomes de cidades, ruas e avenidas.

Guido Marlière
Trata-se Guido Marlière, que chegou ao Brasil em 1808, acompanhando a corte de Dom João VI, que então fugia de Napoleão Bonaparte e acabou, onze anos depois, nomeado comandante geral das Divisões Militares na região do Rio Doce, no leste de Minas Gerais.
Foram inúmeras as incursões de Marlière pela região, que, entre outros feitos, foi o responsável, no ano de 1827, da chegada do maquinário para a primeira indústria da região, pelas águas do rio Doce – na época chamado de Chopotó dos Coroados –, fundada pelo também francês Jean de Monlevade. Ele foi também importante fonte de informações para os alemães Spix (zoólogo) e Martius (médico e botânico), autores de "Viagem pelo Brasil", um dos principais relatos do início da colonização do Brasil.
Guido Marlière chegou à região do Rio Doce em 1818, como inspetor da Divisão Militar, estabelecendo seu quartel numa fazenda da região da Mata, na cidade atual de Guidoval (Guidowald, ou "Floresta do Guido"). Na região, ele construiu um presídio, onde hoje localiza-se a cidade de Visconde do Rio Branco, para onde eram levados, de barco e a cavalo, os degredados, índios e desordeiros aprisionados na região hoje conhecida como Vale do Aço.
Até o seu falecimento, no dia 5 de junho de 1836, Guido Marlière teve um papel importante no processo de catequização dos indígenas que ocupavam a região.

CABELOS
São poucas as imagens relativas a Guido Marlière. Uma das poucas são alguns cachos de seus cabelos, cortados no dia do seu sepultamento por sua esposa, Maria Victória da Conceição Rosier, e guardados num relicário, juntamente com um retrato a óleo do seu rosto, que tornou-se sua imagem mais conhecida. Ele era devoto de Nossa Senhora de Sant'Ana, que deu nome e se tornou padroeira de diversas cidades, entre as quais Santana do Paraíso.
A primeira biografia de Guido Marlière foi escrita pelo médico, cientista e pesquisador Manoel Basílio Furtado, em 1891, também o responsável pela pintura do único quadro conhecido do "Comandante de todas as Divisões do Rio Doce". Esse quadro foi feito com base na imagem do relicário de sua viúva, emprestado por sua neta e herdeira Maria Flávia Marlière.
Visto como "apaziguador e educador" dos indígenas – função que exerceu por 23 anos –, Marlière ganhou posteriormente, em 1928, um busto com sua efígie, instalado na cidade de Guidoval e inaugurado pelo então governador de Minas, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.